5. INTERNACIONAL 7.8.13

1. TRAIDORES OU ATIVISTAS DA PAZ?
2. A MACONHA NA FARMCIA
3. VAI QUE D CERTO
4. ELE NO QUER LARGAR O OSSO

1. TRAIDORES OU ATIVISTAS DA PAZ?
Nos tempos da Guerra Fria eles estariam fritos. Agora Manning e Snowden se beneficiam da imagem de militantes em luta contra o imprio e o belicismo.
TATIANA GIANINI

     A expresso em ingls whistleblower foi criada no comeo dos anos 70 por Ralph Nader, advogado, ativista de todas as boas causas e eterno candidato  Presidncia dos Estados Unidos. Nader quis dar nobreza ao papel  antes descrito pejorativamente como dedo-duro, alcaguete ou informante  do sujeito que, ao revelar segredos podres da organizao onde trabalha, sopra (blaw) o apito (whistle), como um rbitro de futebol marcando uma falta. A lei americana em muitos casos protege os whistleblowers, reconhecendo que, mesmo sendo desleais a suas organizaes, eles prestam um grande servio  sociedade. Esses informantes do bem j ajudaram a desmantelar mfias e, no mundo empresarial, revelaram segredos devastadores da indstria de cigarros e de instituies financeiras. Dois deles estiveram em evidncia na semana passada. Na tera-feira 30, um tribunal militar considerou o soldado Bradley Manning culpado de vinte das 22 acusaes que pesavam sobre ele por ter repassado 700.000 documentos secretos para o site WikiLeaks, em 2010. Dois dias depois, recebeu asilo em Moscou o tambm americano Edward Snowden, ex-funcionrio da CIA, a agncia de espionagem americana, e da Booz Allen Hamilton, empresa privada que presta servios  Agncia de Segurana Nacional (NSA). Snowden entregou  imprensa informaes sobre a espionagem eletrnica feita pelos Estados Unidos. 
     Manning e Snowden so whistleblowers ou reles traidores do seu pas? No tempo tenso da Guerra Fria, que dividia o mundo entre o capitalismo e o comunismo, ningum hesitaria muito em descrev-los como traidores e antiamericanos. Mas e agora? Em um mundo multipolar e sem ameaas de guerras totais, Manning e Snowden gozam do status de pacifistas, militantes por um mundo mais justo e pelo resgate das melhores tradies democrticas dos Estados Unidos  que estariam em risco pelo uso da tortura contra prisioneiros e pela espionagem indiscriminada de indivduos. Tome-se o caso de Manning. Ele foi absolvido da denncia mais grave, ajudar o inimigo por divulgar na internet documentos militares secretos que, em tese, beneficiariam os principais adversrios dos Estados Unidos atualmente, a Al Qaeda e outras organizaes terroristas islmicas. Quem passasse segredos desse jaez para os soviticos durante a Guerra Fria dificilmente escaparia da pena de morte. Manning, mesmo absolvido da acusao de alta traio, se for condenado por todos os demais crimes de que  acusado, poder receber a pena de 136 anos de priso. 
     A opinio pblica americana, compreensivelmente, est dividida sobre se aceita as justificativas de Manning e Snowden para violar o compromisso profissional de preservar segredos de estado. O tcnico de informtica Snowden, de 30 anos, diz que agiu em defesa da privacidade dos cidados. A sua mais recente revelao foi sobre um programa de computador que permite  NSA fazer buscas em bancos de dados com e-mails, chats e histricos de navegao de milhes de pessoas. Manning, hoje com 25 anos, afirma que queria lanar um debate domstico sobre o papel dos militares e da poltica externa americana. Por isso vazou documentos que mostram aes das Foras Armadas no Iraque, no Afeganisto e em Guantnamo, em Cuba  e milhares de telegramas diplomticos sobre os mais variados assuntos. Manning entrou no Exrcito em 2007, animado com a possibilidade de fazer carreira na rea de inteligncia. Dois anos depois, em 2009, foi enviado ao Iraque. L, teria presenciado atos com os quais no concordava, que o impeliram a copiar relatrios do Exrcito, telegramas e vdeos secretos para seus arquivos pessoais. Ele afirma ter oferecido documentos aos jornais The Washington Post e The New York Times, que no demonstraram interesse (o New York Times afirma que nem o ombudsman nem seu assistente na poca se recordavam de ter sido procurados por Manning). No ms seguinte, repassou os documentos para o WikiLeaks. 
     Vivendo exilado na embaixada equatoriana em Londres, o hacker australiano Julian Assange, fundador do WikiLeaks, foi parceiro de Manning na ao contra as instituies americanas e atualmente  o protetor de Snowden. Assange  um poo de contradies. Ele se diz um anarquista em luta contra o imprio americano e as grandes corporaes. Mas adora um regime autoritrio. "Assange  um intermedirio que recebe os documentos. A grande diferena entre ele e um jornalista  que o australiano no filtra o que recebe com o olhar crtico da imprensa", diz Michael Froomkin, professor de direito da  Universidade de Miami. As informaes reveladas pelo WikiLeaks sempre foram obtidas por intermdio de funcionrios pblicos ou terceirizados. Mais de 4,2 milhes de servidores do governo americano e prestadores de servio tm acesso a informaes confidenciais. Um tero deles a dados ultrassecretos. Com  isso, perseguir delatores se tornou uma obsesso da administrao de Barack Obama. O governo americano j acusou sete pessoas pelo crime de violao da lei de espionagem, criada em 1917 para julgar espies e traidores. 
     Felizmente para os Estados Unidos, Snowden e Manning so casos isolados. Eles se enxergam como pessoas iluminadas que tm a misso de desmascarar os poderosos que desvirtuam os verdadeiros valores americanos. Nesse particular so herdeiros ideolgicos de Daniel Ellsberg, o analista militar que, em 1971, entregou ao New York Times um relatrio de 7000 pginas com segredos inconvenientes dos Estados Unidos na Guerra do Vietn  os famosos Pentagon Papers. Ellsberg foi julgado por espionagem, mas em 1973 as acusaes foram retiradas. Snowden espera a mesma sorte.


2. A MACONHA NA FARMCIA
O Uruguai est prestes a legalizar a droga. A experincia de outros pases mostra que, de cada dez novos usurios, pelo menos um vai se tornar dependente.
DUDA TEIXEIRA

     Um pas pacato e de populao predominantemente idosa, o Uruguai est se aventurando em um terreno instvel e incerto. A Cmara de Deputados aprovou na quarta-feira passada um projeto proposto pelo governo que regulamenta o cultivo, a venda e o consumo de maconha. Com o Senado dominado pelo oficialismo, a lei dever ser sancionada ainda neste ano. Quando entrar em vigor, todo habitante do pas com mais de 18 anos ter direito a comprar, na farmcia mais prxima, at 40 gramas de maconha por ms. A quantidade  suficiente para enrolar entre quarenta e oitenta cigarros. No ser preciso sequer receita mdica, apenas informar os dados pessoais do comprador.  o que se chama de "consumo recreativo". Quem quiser poder plantar at seis arbustos de Cannabis na prpria casa. Estrangeiros no podero comprar o produto, o que no os impedir de consegui-lo indiretamente, com amigos uruguaios. 
     Quando se retira uma droga da ilegalidade, a primeira consequncia direta  um aumento do nmero de pessoas querendo experiment-la. As estatsticas mostram que, de cada dez que do suas primeiras tragadas, uma se torna dependente. Alm disso, os efeitos nocivos da droga sobre o sistema nervoso central so mais duradouros do que os do lcool  o THC demora at seis horas para ser metabolizado no corpo, contra duas horas de uma dose de lcool. Ou seja, com o aumento do nmero de cidados fumando maconha, devem se multiplicar no Uruguai os acidentes de trabalho e domsticos. O projeto aprovado na Cmara j probe os usurios de fumar em locais pblicos e dirigir sob o efeito da droga. A maconha estica o tempo de reao do corpo, gera ansiedade e provoca perda de concentrao. Alm disso, graas a vrios cruzamentos genticos, criaram-se subtipos com elevados teores de THC e capazes de produzir alucinaes e delrios. Em geral, a planta tem 5% de substncia com efeitos narcticos, mas os produtores conseguem aumentar isso para at 25% com tcnicas de melhoramento gentico. Os legisladores uruguaios, porm, no elaboraram restries para o uso da maconha por profissionais que podem pr vidas em risco se estiverem com a ateno prejudicada, como pilotos de avio e cirurgies. "No Brasil, as companhias areas fazem exames de urina aleatrios em pilotos para identificar vestgios de lcool", diz o psiquiatra Thiago Marques Fidalgo, coordenador do Programa de Orientao e Atendimento a Dependentes (Proad), da Unifesp, em So Paulo. "O mesmo cuidado deveria acontecer com a maconha em pases onde ela  legalizada.  
     O governo uruguaio acha que a legalizao vai afastar os usurios de maconha da m influncia dos narcotraficantes. Ao comprarem a erva em farmcias, eles no estariam frequentando as bocas de fumo onde tambm so vendidas drogas como o crack. Trata-se de uma aposta arriscada que pode ter o efeito inverso. A maconha, segundo dados da ONU,  uma das principais portas de entrada para outros vcios. Entre viciados em cocana, crack e herona, 95% comearam com um baseado. O presidente Jos Mujica defendeu a lei mais pelas prprias convices do que por clculos eleitorais. Apenas 24% da populao concorda com a legalizao. A maioria, 63%,  contra. Por causa disso, sua popularidade caiu de 66%, no incio do mandato, para 39%. Quem saiu fortalecido foi o ex-presidente Tabar Vzquez, mdico oncologista que tem criticado a liberao do fumac. Vzquez  o preferido para as eleies do ano que vem. Os uruguaios no querem perder sua vida pacata. 

VIDE BULA
O Congresso uruguaio deve regular o uso da maconha que ser vendida em farmcias. Uma sugesto de bula:
COMPOSIO
Cannabis sativa 40g
Cada 0,5 g contm 25 mg de tetraidrocanabinol (THC)
MODO DE USAE
Distribuir entre 0,5 g e 1 g em uma folha de papel fina, enrolar, acender a ponta e tragar
REAES ADVERSAS
Taquicardia, presso alta, respirao acelerada, boca seca, vermelhido dos olhos, apetite aumentado, tempo de reao lento, ansiedade
EFEITOS COLATERAIS
Perda de memria e de concentrao. O uso continuado provoca vcio, depresso, esquizofrenia, transtorno de ansiedade e transtorno bipolar
ADVERTNCIAS
O usurio no deve dirigir veculos, operar mquinas ou desempenhar funo que exija concentrao e bom-senso, pois sua habilidade, ateno e raciocnio ficaro prejudicados
MANTENHA FORA DO ALCANCE DE TURISTAS

COM REPORTAGEM DE TAMARA FISCH


3. VAI QUE D CERTO
Com apoio americano, israelenses e palestinos retomam as negociaes de paz. As expectativas so baixas, o que permite supor que o fracasso no seja to retumbante.
NATHALIA WATKINS

     H assuntos muito mais urgentes no Oriente Mdio atualmente que o conflito histrico entre israelenses e palestinos. A guerra civil na Sria j fez 100.000 mortos desde maro de 2011. A bomba nuclear iraniana deve estar pronta em meados de 2014, segundo divulgaram na semana passada dois pesquisadores do Instituto para Cincia e Segurana Internacional, em Washington, nos Estados Unidos. No incio de julho, os militares deram um golpe no Egito e, desde ento, enfrentam nas ruas os membros da Irmandade Muulmana, que foi apeada do poder. O presidente deposto, Mohamed Mursi, foi preso e permanece em local desconhecido. Em meio a esses acontecimentos,  primeira vista parece incrvel que se ouse buscar um acordo de paz que termine com a ocupao israelense da Cisjordnia, um territrio palestino. H, porm, antecedentes histricos para acreditar que a confuso no entorno de Israel pode at ajudar. Com a expectativa em baixa e a ateno internacional direcionada para outros problemas regionais, a cobrana sobre os negociadores  menor. Nesse contexto, na tera-feira passada o secretrio de Estado americano, John Kerry, a ministra da Justia de Israel, Tzipi Livni, e o cientista poltico palestino Saeb Erekat retomaram as negociaes de paz, paradas h trs anos. 
     O objetivo do trio  chegar a um acordo sobre quatro principais temas no prazo de nove meses. Dois deles podem ser facilmente resolvidos: a retirada de soldados israelenses da fronteira entre a Cisjordnia e a Jordnia e uma troca de territrios. Com uma mudana mnima no mapa, Israel poderia ficar com os assentamentos construdos ilegalmente no territrio palestino. Em troca, cede-  ria reas s margens da Cisjordnia, que  governada pela Autoridade Palestina (AP), e da Faixa de Gaza. Os dois outros itens so mais complicados, pois esto ligados  identidade dos dois povos, judeus e rabes. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu dificilmente ceder Jerusalm Oriental para que se torne a capital palestina, do mesmo modo que Mahmoud Abbas, presidente da AP, vai bater o p na exigncia do retorno dos rabes que viviam no que hoje  o territrio de Israel. 
     Kerry entrou com o entusiasmo de quem investiu seis visitas  regio em cinco meses, mais do que a predecessora Hillary Clinton durante todo o perodo no cargo. J Tzipi e Erekat so velhos conhecidos. Em 2008, eles viram meses de trabalho ir por gua abaixo quando Israel revidou os ataques que vinha sofrendo por parte do Hamas, que governa a Faixa de Gaza, um territrio palestino. O desafio atual foi aceito sem estardalhao, e os discursos dos trs personagens da foto oficial no superaram vinte minutos. Por que o governo americano decidiu patrocinar justo agora um processo to desgastante e com tantas probabilidades de dar errado? Porque, atualmente, no h outro lugar no Oriente Mdio em que a influncia do pas possa fazer alguma diferena.

O PRINCIPAL NO FOI ALCANADO
Se poucas foram as negociaes de paz entre israelenses e rabes patrocinadas pelos Estados Unidos que tiveram resultados concretos, que dir chegar perto do objetivo mais ambicioso, a criao de um estado palestino.

PAZ DE CAMP DAVID
Setembro de 1978
Onde: Casa de campo do presidente americano em Maryland
Patrocinador: Jimmy Carter, presidente americano
Entre: Menachem Begin (Israel) e Anwar Sadat (Egito)
Compromisso: Dar um fim  inimizade entre Israel e Egito
Resultado: Acabou com uma guerra de trinta anos e abriu caminho para a retirada israelense da Pennsula do Sinai, em 1982.

CONFERNCIA DE MADRI
Outubro de 1991
Onde: Madri, Espanha
Patrocinador: George H. W, Bush, presidente americano
Entre: Israel, Sria, Lbano, Jordnia e palestinos
Compromisso: Criar um governo palestino em Gaza e na Cisjordnia
Resultado: Foi a primeira vez que israelenses e representantes palestinos se sentaram para negociar, o que tornou possvel os acordos de Oslo.

ACORDOS DE OSLO
Setembro de 1993
Onde: Oslo, na Noruega, e Washington, nos Estados Unidos
Patrocinador: Bill Clinton, presidente americano
Entre: Yasser Arafat (OLP) e Yitzhak Rabin (Israel)
Compromisso: Retirar as foras israelenses de Gaza e da Cisjordnia e criar um governo palestino
Resultado: A OLP foi reconhecida como representante dos palestinos, que assumiram o controle das sete principais cidades da Cisjordnia.

NEGOCIAES DE CAMP DAVID
Julho de 2000
Onde: Casa de campo do presidente americano em Maryland
Patrocinador: Bill Clinton, presidente americano
Entre: Ehud Barak (Israel) e Yasser Arafat (Autoridade Palestina)
Compromisso: Definir as fronteiras e o retorno de refugiados para Israel
Resultado: As duas partes no concordaram com as propostas e teve incio a intifada, a onda de atentados contra civis israelenses.

CONFERNCIA DE ANPOLIS
Novembro de 2007
Onde: Academia Naval dos Estados Unidos, em Anpolis, Maryland
Patrocinador: George W. Bush, presidente americano
Entre: Ehud Olmert (Israel) e Mahmoud Abbas (Autoridade palestina)
Compromisso: Definir as fronteiras do futuro estado palestino at o fim de 2008
Resultado: Israel acatou o retorno de refugiados e a retirada de 94% do territrio da Cisjordnia. As negociaes foram abandonadas com a ofensiva em Gaza, em 2008.

WASHIGNTON
Setembro de 2010
Onde: Washington, nos Estados Unidos
Patrocinador: Barack Obama, presidente americano
Entre: Benjamin Netanyahu (Israel) e Mahmoud Abbas (Autoridade Palestina)
Compromisso: Retomar as negociaes para a criao de um estado palestino
Resultado: Depois de dez meses, Israel voltou a construir assentamentos e as conversas terminaram.


4. ELE NO QUER LARGAR O OSSO
A primeira condenao definitiva de Berlusconi o coloca na porta de sada. Mas o ex-primeiro-ministro resiste.

     Uma pgina da histria italiana comeou a ser virada na semana passada, com a primeira condenao definitiva do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, em um dos dezoito processos, desdobrados em cinquenta aes, que foram abertos contra ele desde 1994  depois que o magnata das comunicaes fundou um partido para, em teoria, combater a esquerda e, na prtica, facilitar os negcios de seu patrono. Berlusconi foi considerado chefe de um esquema de fraude fiscal organizado no fim da dcada de 90 dentro da empresa Mediaset, parte do grupo Fininvest, de sua propriedade. O esquema, que movimentou ao menos 7,3 milhes de euros, consistia em superfaturar, por meio da emisso de notas frias, a compra de enlatados americanos e desviar a diferena para contas em parasos fiscais. O ex-primeiro-ministro foi condenado a quatro anos de priso, mas, por causa de dispositivos que o beneficiam, cumprir apenas um. Caber a ele escolher se o far em regime domiciliar ou por meio de prestao de servios sociais. No caso da segunda opo, recomenda-se  Justia vetar qualquer trabalho com moas adolescentes. Berlusconi  ru num processo que escancarou as suas relaes com uma prostituta menor de 18 anos. 
     Os promotores haviam pedido uma pena adicional de interdio ao exerccio de cargos pblicos, por cinco anos. O Supremo da Itlia resolveu que o prazo deveria ser recalculado para baixo e devolveu a questo  segunda instncia. O mais provvel  que o perodo diminua de cinco para trs anos  bastante longo ainda para um senhor de quase 77 primaveras, no importa a quantidade de preenchimentos de rugas, maquiagem e tintura de cabelo utilizada. O afastamento formal de Berlusconi da vida poltica  tambm passa por uma deciso dos seus pares no Senado. Eles confrontaro o caso com a legislao que torna inelegveis por seis anos os punidos com mais de dois de priso. A discusso ser sobre se o indulto de trs anos na pena de quatro pode ser considerado um cancelamento de punio, o que poria o ex-primeiro-ministro abaixo do teto previsto para a inelegibilidade. Por ltimo, entrou na pauta de debates a possibilidade de perda do atual mandato. 
     Ele continuar, portanto, a ser o eixo em torno do qual os polticos italianos perdem um tempo precioso em meio  pior conjuntura econmica desde a II Guerra. O pas parou  espera do veredicto e, em seguida, para assistir pela TV ao pronunciamento do condenado. Como se fosse um estadista, emoldurado pelas bandeiras da Itlia e da Unio Europeia, o ex-primeiro-ministro acusou os magistrados de persegui-lo e conclamou os jovens a fazer renascer o movimento Forza Itlia, nome original da agremiao criada por ele. A pgina de Berlusconi seria virada mais rapidamente, se do apoio do seu partido no dependesse a estabilidade do governo de Enrico Letta, o quarento bem-intencionado pertencente s hostes da esquerda inimiga. Aps vinte anos de polarizao, durante os quais os interesses individuais de Berlusconi se sobrepuseram aos da Itlia, mesmerizando seguidores e adversrios, ambos os lados encontram-se num abrao de afogados. Como um tero dos eleitores que ainda votam permanece mais  direita no espectro poltico, a soluo seria surgir logo uma liderana para ocupar o lugar do condenado resistente. No h ningum  vista. 
MRIO SABINO, DE PARIS


